"(...) Vocês de Westeros transformam o amor em vergonha. Não há vergonha em amar.
Seus septões dizem que há, seus sete deuses devem ser demônios. Nas ilhas, sabemos
melhor das coisas. Nossos deuses deram-nos pernas para correr, narizes para cheirar,
mãos para tocar e sentir. Que deus louco e cruel daria a um homem olhos e depois lhe
diria que deve mantê-los fechados sempre e nunca olhar toda a beleza do mundo?"
Kojja Mo - O festim dos corvos
George R. R. Martin
...
A passagem acima descreve uma obra literária totalmente fictícia.
Por vezes, um assunto simples, no entanto, delicado. Sempre guardei a percepção e a dúvida atribuída a palavra pecado. Poderia basicamente montar um painel com as palavras de George M. Martim como forma da minha admiração por suas obras, e não dissertar sobre o quanto a afirmativa de sua personagem mexeu com uma das partes mais inquietantes do meu âmago: a religiosidade humana.
Uma vez lida, não pude parar de pensar na palavras de Kojja Mo e, infelizmente, associá-las ao modo como o alicerce da crença não-fictícia se pinta: banhada de manipulação. Inicialmente pode aparentar uma afirmativa duvidosa mas, se feita uma análise do modo com o qual a doutrina religiosa esta presente no convívio social nos veríamos deliciosa e humanamente pecadores sobre pequenas questões que, ao meu ver deviam ser simplesmente simples ;)
De tudo que digo, nada generalizo. E quando ouso dizer que o "cabaço" só tem a serventia de ser perdido não estou ignorando todas as opressões sociais sofridas pelo sexo feminino ao longo de décadas mas, quem disse que virgindade é sinônimo de pureza? Não sei você, mas tenho grandes expectativas de que há uma proposição inteligivelmente plausível para jugar tal condição "simbolo de candura", só não me disseram ainda.
A morte é obviamente a divida que todo homem "paga" por realizar um clico vital de fim inevitável. Porque justificar o pecado como sendo o salário da morte se somos todos seres mais-que-imperfeitos? Não sei se por coincidência ou felizmente, aqui o salário minimo é minimo.
Biblicamente falando (e sem nenhuma intenção de ofender doutrinas que têm como base seus mandamentos), para que se põe uma macieira no centro de um bosque se não se pode provar o doce de seus frutos? Somos naturalmente curiosos (assim, como também firma o mito greco-romano A caixa de Pandora), se não fosse Eva mãe poderia ser eva filha a dar a primeira mordida na maça. E quanta a coitada da cobra? Ela não rasteja por ser um representante maligno mas, simplesmente pelo fato de que suas condições evolutivas não apresentavam a necessidade de patas; pobre réptil.
...
"A presença do outro desperta em nós o que temos de mais primitivo. Na impossibilidade de viver afetos intensos, seja amorosos, seja agressivos, podemos "inverter" o que não nos autorizamos a sentir: ao invés de reconhecermos o que vigora em nosso inconsciente como desejo de domínio, medo, inseguranças várias, nos deixamos dominar. Em função dos instrumentos ditos civilizatórios (educação, moral, religião, bons costumes), e da nossa impossibilidade de entrarmos em contato com o que habita em nosso inconsciente, passamos uma vida cometendo pequenos e cotidianos assassinatos da alma. Sem o reconhecimento do inconsciente, nos tornamos escravos das idealizações."
Evelin Pestana
Por fim, não pretendo sugerir mais um fatigante debate sobre a carne e o espírito. Até mesmo porque, se eu ao menos tenta-se discorrer sobre todas as normalidades humanas transformadas em tabus e motivos para atrito- com as quais me deparo incansavelmente todos os dias, este post se tornaria um porre. Sendo assim, pequemos. Muito. Mas pequemos conscientes do modo como isto se refletira no mundo, na vida do próximo mas principalmente na nossa, que é única.
Pós scriptum :)
Há pouco mais de um ano decidi seguir o agnosticismo e estaria sendo hipócrita se não esclarecesse que, embora esta minha observação por sobre o trecho que supracitei não esteja fazendo alusão a nenhuma crença, as minhas observações têm uma leve disposição religiosa. Supostamente, você pode estar parcial ou decididamente em concordância comigo... ou não.



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